Pesquisa do MEC
mostra que limitar o uso dos aparelhos deixou de ser a principal preocupação
dos gestores. Agora, o foco está em preparar estudantes para conviver de forma
saudável com a tecnologia dentro e fora da escola
Poucos meses depois de a
restrição ao uso de celulares ganhar espaço no debate nacional, gestores da
educação apontam que o maior desafio já não é apenas retirar os aparelhos das
salas de aula, mas ensinar crianças e adolescentes a construir uma relação equilibrada
com a tecnologia.
Levantamento realizado pelo
Ministério da Educação (MEC) confirma essa mudança de percepção. Entre os
gestores consultados, 67% afirmam que o principal caminho para reduzir os
impactos do excesso de telas é fortalecer a parceria com as famílias. Na sequência
aparecem a formação de professores em mediação tecnológica, saúde mental e
bem-estar (61%), a ampliação de espaços de convivência (60%) e a inclusão da
Educação Digital e Midiática no currículo (49%).
Os números revelam uma mudança de
foco. Se o debate recente esteve concentrado na proibição dos celulares, agora
cresce o entendimento de que a medida, sozinha, não modifica hábitos nem
prepara os estudantes para viver em um mundo cada vez mais conectado.
Essa percepção também encontra
respaldo em pesquisas internacionais. O relatório Global Education Monitoring
Report, da UNESCO, alerta que a tecnologia na educação precisa estar vinculada
a objetivos pedagógicos claros e ao desenvolvimento de competências digitais.
Já estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)
mostram que o uso excessivo de telas pode prejudicar a concentração, o
desempenho escolar e o bem-estar quando não existe acompanhamento de adultos.
“Discutir o uso dos celulares foi
importante porque trouxe à tona uma situação que as escolas já vivenciam há
bastante tempo. O aparelho já faz parte da rotina da maioria dos alunos e, por
isso, essa discussão precisa ir além de permitir ou proibir o uso. As
restrições são importantes para organizar o ambiente escolar, mas também
precisamos preparar os estudantes para lidar com a tecnologia de forma
responsável e equilibrada. Esse processo envolve a escola, os educadores e as
famílias”, afirma a supervisora pedagógica Mariana Cardoso, do Colégio Ideal,
no Distrito Federal.
A família passa a ser
protagonista
O fato de a parceria com as
famílias liderar as prioridades apontadas pelo MEC não é por acaso. A maior
parte do tempo de exposição às telas acontece fora da escola, especialmente à
noite, nos fins de semana e durante as férias.
Por isso, diversas escolas têm
criado estratégias para aproximar pais e responsáveis desse debate. Entre as
ações estão palestras sobre saúde digital, oficinas para orientar a
configuração de controles parentais, cartilhas com sugestões de acordos familiares
sobre horários de uso dos celulares, desafios semanais para reduzir o tempo de
tela e encontros em que pais e filhos constroem juntos regras para o uso da
tecnologia em casa.
A proposta é que os limites não
existam apenas dentro da escola, mas façam parte da rotina familiar, criando
referências consistentes para crianças e adolescentes.
Professores assumem um novo
papel
Outra mudança observada é a
ampliação do papel dos educadores. Mais do que utilizar recursos tecnológicos
em sala de aula, os professores passam a atuar como mediadores da vida digital
dos estudantes.
Na prática, muitas escolas já
promovem formações continuadas sobre uso consciente das redes sociais,
prevenção ao cyberbullying, combate à desinformação, inteligência artificial,
saúde mental e cidadania digital. Algumas também desenvolvem projetos interdisciplinares
nos quais os próprios alunos analisam notícias falsas, refletem sobre o
funcionamento dos algoritmos das plataformas e discutem os impactos do excesso
de telas no cotidiano.
“Os alunos recebem informações o
tempo todo, dentro e fora da escola. Por isso, o professor também precisa
ajudá-los a questionar o que estão vendo, entender o que é confiável e perceber
os impactos que a tecnologia pode ter no dia a dia. Não é só ensinar a usar uma
ferramenta, mas também ajudar os alunos a entender como e quando usá-la.”,
avalia a supervisora pedagógica.
Mais convivência, menos
dependência das telas
Seis em cada dez gestores
defendem investimentos em espaços de convivência, esporte, cultura e atividades
coletivas como estratégia para reduzir a dependência dos dispositivos
eletrônicos.
Em vez de apenas proibir o
celular, muitas escolas estão tornando os intervalos mais atrativos. Jogos de
tabuleiro, campeonatos esportivos, clubes de leitura, oficinas de música,
hortas escolares, projetos de voluntariado, rodas de conversa, salas de convivência
e desafios colaborativos têm ocupado o tempo que antes era dedicado quase
exclusivamente às telas.
A ideia é simples: quando os
estudantes encontram oportunidades reais para brincar, conversar, criar e
fortalecer vínculos presenciais, o celular deixa de ser o centro das relações
sociais.
Educação digital deixa de ser
tema complementar
A quarta prioridade apontada pelo
MEC representa uma transformação estrutural na educação brasileira.
Cada vez mais escolas incorporam
a Educação Digital e Midiática ao currículo por meio de aulas específicas ou
integrada às demais disciplinas. Os estudantes aprendem, por exemplo, a
identificar notícias falsas, compreender como funcionam os algoritmos das redes
sociais, proteger seus dados pessoais, reconhecer golpes virtuais, respeitar
direitos autorais, utilizar ferramentas de inteligência artificial de forma
ética e construir uma presença digital responsável.
Mais do que ensinar o
funcionamento das tecnologias, a proposta busca desenvolver competências que
acompanharão os jovens durante toda a vida.
“Hoje, não dá para pensar na
formação dos alunos sem considerar a relação que eles têm com a tecnologia. A
escola também precisa ajudá-los a entender como usar a tecnologia de forma
responsável e a fazer boas escolhas no dia a dia. Por isso, trabalhar o letramento
digital é também prepará-los para situações que vão encontrar dentro e fora do
ambiente escolar”, destaca a porta-voz.
A leitura feita por gestores e
especialistas é que a discussão sobre permitir ou proibir celulares foi apenas
o primeiro passo de uma transformação mais ampla. Os dados do MEC indicam que
as escolas começam a substituir uma lógica baseada apenas na restrição por
outra centrada na educação, no diálogo e na construção de hábitos digitais
saudáveis, compartilhando essa responsabilidade entre estudantes, famílias e
educadores.





